Lord of the Flies (2026) – Episódio 2: Jack

“Your father is not coming for you, Jack”

É impossível não notar a grandiosidade dessa história. Cada episódio é um soco no estômago repleto de material para reflexão, e não é difícil entender por que “O Senhor das Moscas” se tornou um clássico da literatura britânica. Nesse segundo episódio da adaptação de 2026 da obra de William Golding – com roteiro de Jack Thorne e direção de Marc Munden –, somos convidados a acompanhar Jack, o líder dos garotos do coral, que transformara o seu grupo nos “caçadores” responsáveis pelo fogo e pela comida do acampamento, e o episódio nos permite saber mais a seu respeito, para além do garoto arrogante e desprezível apresentado no piloto… garoto esse que continua ali em muitos momentos, mas que também é, em parte, fachada para algo a mais.

Os primeiros minutos do episódio nos mostra paralelos entre um Jack subitamente silencioso na ilha e o Jack de antes do acidente – aquele que estava sozinho no aeroporto enquanto os pais das outras crianças se despediam deles com abraços carinhosos e promessas de saudade, ou o Jack que dizia em voz alta que uma turbulência não era motivo para preocupação, enquanto secretamente talvez estivesse tão apavorado quanto as crianças ao seu redor que estavam gritando quando o avião começou a cair. A mudança no ponto de vista da narrativa dá continuidade aos eventos da ilha, mas lança nova perspectiva sobre eles, o que é curioso e inteligente. No primeiro episódio, vimos muito de Jack pelos olhos de Piggy… agora, o vemos quando ele está sozinho.

E, sozinho, ele é quase outra pessoa.

Há momentos em que Jack quase se permite deixar de lado sua encenação contínua, e isso o torna muito mais humano… gosto particularmente da cena em que ele nada sozinho com Ralph, o que me faz pensar também na maneira como a água é um grande símbolo para Ralph, e de quando, sozinho, Simon parece sentir o que o próprio Simon dissera que existe ali. Os pequenos estão apavorados e parecem sentir que existe algo ruim na ilha, e Simon acredita nisso, e pergunta a Jack se ele não sentiu isso quando está na floresta sozinho, como se houvesse algo atrás dele… ele não diz que sentiu, mas sentiu. E isso é marcado pela trilha sonora ameaçadora que não apenas intensifica como guia as nossas sensações ao longo de todo o episódio… é uma obra de arte!

Sozinho ou com poucas pessoas a quem ele não acha que deve uma encenação contínua de força ou sabe-se lá o quê ele quer projetar, Jack é também uma criança com suas inseguranças, seus medos, suas vontades… a cena na qual ele está escalando um paredão de pedra e trava no meio do caminho é uma das mais interessantes do episódio, porque aqui ele aceita a ajuda de um colega para descer e, quando ele está de volta em segurança no chão, ele agradece e notamos uma lágrima escorrendo do seu olho, acompanhada de uma fungada sincera, mas ele pede que eles não contem isso a ninguém, porque “os outros não entenderão”. Quem o entende, talvez mais do que ninguém, é o Simon, com quem ele compartilha o meu diálogo favorito do episódio.

A conversa de Jack e Simon é sobre pais, sobre aquilo ser um teste que ele sente que precisa vencer, sobre ele não querer necessariamente que seja, mas sentir que é… com Simon, ele permite, nem que por segundos, que se note que ele está assustado, embora ele não use essa palavra, e sua voz em algum momento dá uma falhada e os olhos brilham, mostrando o quanto Jack é real. Na próxima assembleia, no entanto, ele está de volta com a sua máscara de garoto arrogante e ele ri e debocha de Piggy e de Ralph ao lado dos seus “colegas caçadores”, e toda aquela cena me fez lembrar muita coisa que eu senti durante o primeiro episódio – é angustiante em muitos sentidos, me incomoda o quanto Piggy e Ralph trazem questões pertinentes e a maioria deles parece não estar nem aí

Se esse episódio nos permitiu conhecer mais de Jack, ele também dá pequenas dicas que me deixam muito curioso com os episódios futuros. Simon é um personagem intrigante; Ralph, por sua vez, parece ter mais voz nesse episódio do que no primeiro, e gosto de como ele pega a concha durante a assembleia e tenta se impor, falando sobre como eles começaram bem, mas aquilo está desandando e ele quer entender o que aconteceu. Jack não lhe dá ouvidos, faz um discurso todo encenado e espalhafatoso com a concha, mas a ironia no roteiro reina, com o Jack discretamente escutando o que um dos pequenos, de quem todos estavam debochando até então, tem a dizer sobre o que eles estão vendo e o que eles estão sentindo… há alguma coisa na ilha.

Alguma coisa que vem do mar.

Uma das cenas mais assustadoras do episódio acontece durante a caçada liderada por Jack. Sua determinação em matar um porco e levar carne para o acampamento é a motivação por trás de todas suas ações, porque aquilo representa muito para ele… a cena na qual eles cercam e matam o porco brutalmente, no entanto, é gráfica e selvagem de uma forma que causa propositalmente imenso desconforto, e eu tive que pausar o episódio e tomar um ar antes de conseguir continuar. A maneira como parece haver algo que toma conta daqueles meninos, o sangue espirrando e cobrindo Jack por inteiro, a reação em choque de alguns meninos versus o prazer e a satisfação de outros… tudo é chocante, e eles retornam cantando a sua vitória, sentindo-se empoderados.

No meio do caminho, os caçadores encontram uma mala, que descobrem ser de Simon a partir de um diário que eles começam a ler, até que o Jack os detenha com certa urgência que, por alguns segundos, desfaz a máscara de sempre. Depois, eles exploram outras malas e seus pertences, e retornam para o acampamento carregando consigo a caça e entoando um hino de vitória e selvageria que é a celebração de seu feito – mas não encontram a adoração desejada, ironicamente. Piggy, Ralph e os demais estão gritando e tentando chamar a atenção de um navio no horizonte, que era a chance de resgate que eles perderam porque todos os caçadores, inclusive os que estavam responsáveis pelo sinal de fogo, saíram para pegar um porco e não fizeram o que tinham que fazer.

Os embates nascidos dessa perda do resgate geram consequências. Simon anuncia que não adianta mais tentar acender o fogo para esse navio porque eles já viraram, e Ralph se vira contra Jack, dizendo que eles não deviam ter deixado o fogo, porque eles tinham um combinado. É fortíssima a cena de Ralph chamando o Jack de “fracasso”, mas eu adoro ver a maneira como o Ralph se engrandece e começa a se tornar o líder que foi eleito para ser. Também gosto de como o Piggy enfrenta o Jack, algo que ele nunca teve medo de fazer, e como há um quê de desespero em Jack, que quer ser reconhecido e agradecido pela caça, quando Piggy solta um irônico “Obrigado por me manter prisioneiro na sua ilha”. A explosão de raiva de Jack aqui diz muito do turbilhão dentro dele…

Nada saiu conforme o planejado. Ele queria ser o herói, amado e idolatrado por todos por ter trazido comida, mas toda a questão do fogo apagado e do navio que foi embora parece ter esvaziado a sua vitória e chances de reconhecimento. Ele anuncia, então, sua partida do grupo e do acampamento liderado por Ralph, e em um primeiro momento ele sai na outra direção sozinho – a direção da cena é genial e perversamente inteligente na maneira como mostra que o Jack está saindo chorando, porque eu condeno praticamente todas as atitudes de Jack, ao mesmo tempo em que ainda consigo sentir por ele, porque ele é um personagem complexo. Há tanto ali sob a superfície que não dá para resumi-lo e/ou defini-lo. E é essa a grande vitória de “O Senhor das Moscas”.

Outro episódio excelente!

 

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