The Boy and I Who Will Break Up in 100 Days – Ep. 04: The Crumbling Ideal

“Stop using other people’s lives as toys for your entertainment”

Mais de uma vez eu comentei, tanto aqui quanto em minhas redes sociais, que nem todo BL é uma série queer, apesar de muita gente confundir os conceitos e assumir erroneamente que “todo BL é uma série queer”. Não é, e não é por dois pontos simples: quem conta a história e para quem se conta. Independentemente do gênero do BL – que pode ser romance, terror, mistério, fantasia, etc. – a representação de personagens e vivências gays não é inerente a ele, e é sempre um prazer quando nos deparamos com uma série como “The Boy and I Who Will Break Up in 100 Days”, comercializada como BL, mas capaz de ir além da superfície e de fato se preocupar em olhar para a comunidade LGBTQIA+ não apenas como “brinquedos para seu entretenimento” e conversar diretamente com ela.

E eu adoro o fato de um personagem FALAR sobre isso.

Depois da visita a Naomi e o seu bebê recém-nascido, Itsuki se mudou temporariamente para a casa de Yamada, o que permitiu que Yamada conseguisse algumas filmagens mais naturais dele, como não estavam conseguindo até então – embora essas filmagens não contem com Yuma. Itsuki passa uma semana fora, mas no dia da gravação do Dia 49, ele anuncia a Yuma que voltará a morar com ele… esse é o dia em que eles visitam os pais de Yuma, e eles são realmente pessoas bacanas, mesmo que eu tenha achado que talvez parte do que vimos no “documentário” do primeiro episódio pudesse ter sido encenado, mas é justamente por eles serem pessoas bacanas que Itsuki diz que não quer mentir para eles… eles terminaram há muito tempo.

A conversa enquanto eles preparam as camas para dormir não é a minha favorita do episódio porque as coisas ficam cada vez melhores conforme o episódio avança, mas é um diálogo poderoso que tem tudo a ver com o conceito e o clima da série. Itsuki pergunta, em tom cansado, até quando Yuma pretende seguir com essa mentira – até o fim das gravações; até o lançamento do documentário; ou depois, quando as pessoas os procurarem por ser esse “casal maravilhoso” que viram na TV; –, e Yuma novamente sugere que eles não terminem, mas a verdade é que é cada vez mais claro que essa possibilidade já não existe: os mortos não podem ser trazidos de volta à vida. E embora ele tenha aceitado isso quando sugerido por Yuma, Itsuki não aguenta mais.

É constantemente sufocante.

No Dia 62, temos uma sequência interessantíssima na qual nos deparamos com um Yuma que bebe para afogar a frustração de uma entrevista que tentam impor que seja utilizada no documentário e que parece reduzir o seu trabalho apenas ao fato de ele ser gay. É um discursinho demagógico tenebroso, repleto de microagressões, que não valorizam o trabalho de Yuma e visa promoção descarada a partir do documentário – no retorno para casa naquela noite, Yuma desabafa no carro sobre como “ele só queria ser tratado como um ser humano”, e Shiho entende o que ele quer dizer… e é por isso que ela diz que fará um documentário que trate Kasuga Yuma como ser humano. Gosto de conhecer mais de Yuma, gosto de vê-lo mais fora do personagem que ele criou para as câmeras.

Quando chega em casa, as coisas mudam drasticamente, e eu preciso dizer que eu adoro a coragem da série. Yuma encontra Itsuki na cama com outro homem – não qualquer outro homem, mas o fã que eles conheceram em um evento há uns 40 dias –, e a cena toda é construída de maneira intensa e crua, e isso me deixou de queixo caído. Yuma vomita, em parte por causa da bebida, em parte por desgosto, e enquanto o outro homem começa a pedir desculpas exageradamente, Itsuki pede que ele vá embora. Há uma aparente frieza em Itsuki que é, na verdade, praticidade, quando ele diz com simplicidade que “ele terminaram há muito tempo, de qualquer maneira”, quase com um dar de ombros… e é um soco no estômago da audiência.

Eu sabia que o Itsuki estava se preparando par fazer história. E ele faz. Ele escancara a hipocrisia da relação falsa sustentada por motivos externos, do documentário com propósitos egoístas mascarados de preocupação com a comunidade sem que seja de fato, uma vez que se baseia em encenação se passando por vida real, e da vida de pessoas gays sendo utilizadas única e exclusivamente como entretenimento. A força de Itsuki está em suas palavras, em sua expressão, em sua postura e em tudo o que ele também não diz, mas está ali… ele está exausto de tudo e está cansado que brinquem com quem ele é para produzir uma obra midiática com objetivos escusos e que não conversam realmente com ele, com sua realidade, com seus problemas…

Ele vai embora ali.

É curioso, também, o que vem depois, porque Yuma e Shiho entram em uma conversa sobre se é possível seguir o documentário com o que eles já têm de gravação, enquanto Yamada é o único que diz que essa deveria ser a última coisa em que estão pensando agora. E essa fala de Yamada encontra ecos mais tarde, quando o documentário está inteiramente comprometido e Naomi chama Shiho para a sua casa, e a ajuda a entender que, dessa vez, o que está acontecendo está relacionado ao fato de elas se preocuparem mais com elas mesmas do que com as pessoas no documentário em si… afinal de contas, Shiho sempre notou que havia algum problema com Itsuki, mas ela escolheu ignorar isso, porque se importava mais com o produto do que com a pessoa.

Mais um grande episódio!

 

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