Star Trek: Starfleet Academy 1x08 – The Life of the Stars
“I will
parent her. Here. In Kasq”
UMA VIDA
INTEIRA EM DUAS SEMANAS DO TEMPO DA TERRA. Exibido originalmente em 26 de
fevereiro de 2026, “The Life of the
Stars” é o oitavo episódio da primeira temporada de “Star Trek: Starfleet Academy” e é um dos episódios mais bonitos e
mais sensíveis da série. Conforme os cadetes da Academia da Frota Estelar
tentam lidar com os acontecimentos e as perdas ocorridas na USS Miyazaki, a
Capitã Ake resolve pedir a ajuda de Sylvia Tilly, sabendo que os cadetes
precisam de aconselhamento de trauma sem
saber que é aconselhamento de trauma – assim, ela é chamada para dar aulas
obrigatórias de teatro, que ela apresenta aos jovens como uma das ferramentas
mais poderosas para mudança social e política. É sensível, íntimo e forte.
A trama do
episódio é introduzida a partir do retorno de Tarima Sadal, recuperada depois
do seu período em coma, mas transferida da Escola de Guerra para a Academia da
Frota Estelar por causa do tipo de coisa que ela não pode mais enfrentar – talvez seu futuro tenha que ser em um
área como a ciência. O retorno de Tarima é apenas um lembrete do trauma pelo
qual todos passaram no Miyazaki, e todos estão tendo dificuldade de lidar com
isso… trabalho em equipe simplesmente não acontece como deveria, todos estão
excessivamente estressados, irritados e não se entendem. E no meio disso tudo
está Sam, empolgada demais com as aulas de teatro, lendo e descobrindo tudo que
é possível e secretamente não conseguindo lidar com os traumas…
É coisa demais para que ela processe com
seus 209 dias de vida.
Gosto muito
de como o episódio conversa com a franquia e como evidencia a amplitude desse
universo, entregando conexões bacanas com outras séries de “Star Trek”, ao mesmo tempo em que segue acessível como porta de
entrada para quem está se aventurando na franquia pela primeira vez. A série
tem sua independência e mantém a sua conexão com o legado. Sylvia Tilly é um
aceno para os fãs de “Discovery”, por
exemplo, e é muito bom vê-la novamente. Já a parte da trama que foca no Doutor
nos remete a “Voyager”, com direito a
menções à vida inteira vivida por ele em 18 minutos passados na nave ou à sua
filha. E, ainda assim, é um episódio gigante para a personagem de Sam, a nossa
fotônica querida de “Starfleet Academy”.
Tudo é muito
interligado… Tarima, Tilly, Sam, o Doutor. Tudo gira em prol de um mesmo tema.
Na primeira aula de teatro de Sylvia Tilly, Jay-Den faz uma apresentação
potencialmente hilária de uma Ópera Klingon, seguido por Sam, que introduz “Our Town”, peça terráquea de 1938,
escrita por Thornton Wilder. A peça escolhida por Sam é o legado que ela deixa
para as aulas de teatro que ela deixa de frequentar depois de falhar
severamente durante a primeira delas… seus processadores estão sobrecarregados
há semanas, desde a Miyazaki, e ela está em uma espécie de loop de falhas que o Doutor não sabe como consertar… portanto,
talvez a única alternativa seja levá-la para Kasq, mas enviá-la para lá é
arriscado porque podem não deixar que ela volte…
Por isso, o
Doutor e Nahla Ake vão com ela.
Enquanto Sam
inicia sua viagem rumo a Kasq, escoltada por duas pessoas que ela admira, a
vida na Academia tenta seguir em frente, com “presentes” deixados por ela –
como uma escova de dentes para Genesis e um travesseiro e um papel para Tarima.
A partir de agora, Tarima lerá para o papel de Emily nas aulas com Sylvia
Tilly, e eu gosto da veracidade e da intensidade dessas cenas. De como Tarima
parece resistente e fechada e de como mais cedo ou mais tarde enfrenta Tilly
dizendo que “sabe o que ela está fazendo” e que “ela nem estava no Miyazaki”,
mas o próprio Ocam diz a Tarima que eles
estavam… todos sabem o que Tilly
está fazendo através da peça e de suas perguntas, e eles gostam e precisam
disso: as coisas não são mais as mesmas desde Miyazaki…
As próprias
paredes não parecem iguais, eles não se sentem bem ali…
Eles querem que as coisas fiquem mais como
eram antes.
Tarima tem
uma sequência de momentos importantes nesse episódio. Depois de passar a maior
parte do tempo evitando o Caleb – é uma junção de sensações, porque em parte
ela se envergonha da parte de si que tenta esconder e que deixara Caleb ver, em
parte ela está brava e em parte ela teme que as pessoas ao seu redor, de quem
gosta, não estejam a salvo com ela –, ela o chama para um encontro e ele a
encontra bêbada. O álcool, no
entanto, deixa tudo mais à flor da pele e os dois acabam brigando quando ela
diz que é um monstro e o acusa de ter vindo apenas porque está intrigado com
essa “versão monstruosa” dela, e o manda “ir atrás da Genesis”, agora que ele
“é um bom moço da Academia da Frota Estelar” ou qualquer coisa assim.
A cena é
importante porque ela é injusta, talvez, mas real. Eles são jovens, eles são
inseguros, eles estão lidando com mais do que são capazes… e cenas e diálogos
como esse evidenciam isso muito bem. Tarima também tem uma cena importante com
Genesis quando retorna para o quarto que elas dividem com Sam, no qual agora
estão sozinhas, e percebemos que ela queria detestar a Genesis por sentir
ciúmes, mas “entende por que o Caleb gosta dela” – fortíssima a fala de ela
achar que Genesis é um porto-seguro e ela não pode ser isso para ninguém. É só
depois disso que ela se abre, mesmo que involuntariamente, durante as aulas de
Sylvia Tilly, e quando ela esbraveja e Tilly segue firme, Tarima deixa que as
lágrimas fluam e que as angústias saiam…
Em parte, ela precisava permitir-se sentir.
Na nave a
caminho de Kasq, também acompanhamos momentos muito sensíveis… eu gosto de Sam,
e é por isso que aquela cena na qual ela fala sobre todas as coisas que ela
ainda quer fazer e que quer viver me agrada tanto, porque é como Genesis falou
sobre a escova de dentes deixada para ela: Sam vê o magnífico em coisas
simples. Sam quer ter experiências…
ela quer a experiência de cair de bunda e morrer de humilhação, quer ser ajuda
a se levantar pela melhor amiga, quer mudar de ideia umas seis vezes antes de
escolher o que pedir para comer, mesmo que nem coma, quer se apaixonar… a
exasperação e sinceridade com que ela diz isso tudo a coloca novamente em um
estado de falha e os processadores a colocam para dormir para impedir um
desligamento mais severo.
Sam está
desacordada quando eles chegam a Kasq e são recebidos pelos Criadores, que
reconhecem o Doutor imediatamente de todas as histórias que ouviram a seu
respeito: um ser fotônico que viveu entre os orgânicos por nove séculos. Há
algo de etéreo ali, e os Criadores examinam Sam para tentar determinar a causa
de seu mau-funcionamento, eventualmente anunciando que o estrago está além de
sua capacidade de reparo. Aparentemente, o que foi feito pelos Criadores ao
longo de muito tempo foi destruído pela sociedade deles nos 209 dias que Sam
passara na Academia – para os Criadores, foi aquele mundo que causou isso e,
portanto, eles já sabem tudo o que precisavam saber sobre os orgânicos… e não
mandarão mais nenhum emissário.
“Series Acclimation Mil… terminate”
É dramático
e profundamente triste. Quando Sam é aparentemente desligada sem chance de
recuperação, a série nos leva de volta à Academia da Frota Estelar, enquanto a
sua falta é sentida. Genesis, Darem, Caleb, Jay-Den e Ocam estão reunidos
falando sobre ela, sobre tudo o que ela fez e faz, sobre tudo o que ensinou a
eles, sobre seu modo de agir, sobre a falta que eles sentem. Então, Ocam se
levanta e retorna espontaneamente para “Our
Town”, fora das aulas de Sylvia Tilly, e os demais se juntam a ele… é muito
simbólico! Em paralelo, o Doutor também fala com Sam, com os Criadores e/ou
consigo mesmo – ele fala sobre como perdeu a filha há 800 anos e como, quando
viu Sam pela primeira vez, ele não conseguiu segurar sua mão porque ela o
lembrou de Belle.
O Doutor
fala sobre como Sam tinha no rosto o mesmo sorriso de sua filha e como ele não
podia correr o risco de sofrer uma perda como essa mais uma vez… nesse momento,
no entanto, ele segura a mão de Sam e pede desculpas, ainda que ela não possa
ouvi-lo, e lida com um sentimento de perda similar. Ake tenta interceder por
Sam junto aos Criadores, mas eles percebem que não é uma questão de eles não quererem salvá-la, mas de não poderem. Com seus 209 dias de vida,
sem programação de experiências anteriores, o erro também foi deles ao não dar
a Sam bagagem o suficiente para lidar com problemas e com traumas. Por isso que
seus processadores sobrecarregaram, porque ela não tinha passado pelo que as
pessoas passam ao longo da vida…
Ela não teve as experiências da infância, os
aprendizados, frustrações…
É disso o
que ela precisa, se for para ela voltar. Ela precisa, de fato, viver os 17 anos
além de uma programação rasa, para ter material e resiliência para poder lidar
com as emoções e o trauma de Miyazaki, e o que mais ainda pode aparecer em sua
vida. Assim, os Criadores se propõem a “reconstruir” Sam “desde o início”, e
darão a ela o que ela nunca teve: uma infância, uma vida, vivências… e Ake sabe
quem precisa estar com ela durante todo esse tempo: o Doutor, como seu pai. 17
anos em Kasq serão como dias/semanas na USS Athena e na Terra, e ela terá
alguém com ela. O Doutor resiste, em um primeiro momento, mas Ake o incentiva a
deixar de contar a história para ser parte dela… e ele aceita a missão,
porque também importa para ele.
Agora, ele é
oficialmente pai de Sam. Durante 17
anos!
Sam não será
a mesma quando retornar… ela ainda será a Sam, mas será mais complexa, e terá duas memórias
diferentes convivendo. Uma de sua primeira vida, que foram os 209 dias que
passara na Academia antes; e outra dos 17 anos vividos em Kasq, ao lado do
Doutor. As cenas são rápidas, flashes de
uma vida inteira vivida em minutos de episódio, e ainda assim é profundo,
sentimental, forte… e lindo. Sam vive
para aprender a viver. 17 anos depois para ela e 2 semanas depois para quem
esperou por ela na Academia da Frota Estelar, Sam está de volta, com seu
sorriso imenso de sempre, recebendo abraços de todas aquelas pessoas que
estiveram ali e sentiram sua falta. O episódio é de uma sensibilidade e de uma
força impressionantes. Amei!
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