Ticket to Heaven – Ep. 06
“You can
love God and love yourself at the same time”
Tenho
ressalvas… mas gosto muito da série. “Ticket
to Heaven” foi encerrada no dia 04 de julho de 2026 e ela entrega uma
história de amor bonita entre dois jovens que se conhecem em uma escola
religiosa, um deles determinado a virar padre e “se reencontrar com os pais no
céu”. Com um potencial gigantesco, a série fica aquém do que poderia ter
entregue, embora tenha se saído bem dentro de sua proposta – como comentei
extensamente na minha review
anterior, ficam claras as escolhas que foram feitas na condução da narrativa, e
essas escolham mostram mais do que uma possível “cautela”: elas mostram uma
decisão deliberada de propaganda de uma igreja católica acolhedora que habita a
fantasia de um homem religioso que calha em também ser LGBTQIA+.
A jornada
pessoal de Tanrak é bonita, e ele e Barth compartilham vários dos meus momentos
favoritos na série nesse último
episódio, que tem pouco mais de 1h20min de duração. Gosto da juventude, gosto
da tomada de decisão, gosto do romance e da experimentação da liberdade quando
Tanrak e Barth estão longe das paredes que parecem reforçar uma culpa que eles
não precisam sentir. Desgosto fortemente, no entanto, de como tudo foi
conduzido depois da passagem de tempo… eu fico profundamente feliz por eles não
terem se separado e terem vivido uma história de amor durante anos a fio, mas a
série peca pelo excesso. A beatificação da Igreja Católica como esse lugar
lindo e acolhedor onde não se existe culpa é risível e me tirou totalmente do
episódio.
Eu sou um
homem que acredita em Deus. Curiosamente, fui muito religioso durante a minha
adolescência e juventude, participei de grupos de jovens, cheguei a coordenar
um, fui parte da equipe de liderança e organização de retiros. Naturalmente,
isso tudo aconteceu antes de eu me assumir. Continuo acreditando em Deus e
rezando diariamente – mas não frequento mais a igreja há muito tempo. Ainda que
cada pessoa, LGBTQIA+ ou não, tenha uma relação própria com a instituição, os
dogmas da IC mostram, na melhor das hipóteses, tolerância… não aceitação, e o
discurso de muita gente lá dentro é carregada de preconceito, mesmo de algumas
pessoas que não acham que estão sendo preconceituosas quando falam sobre “amar
o pecador e não o pecado”, por exemplo.
Não acredito
em um Deus preconceituoso, mas acredito na igreja como instituição mantenedora
de preconceitos e em seguidores que usam seus dogmas para tal… é por isso que a
cena do pai de Barth batendo nele com a bíblia carrega tanto significado, como
comentei em outro texto.
Não estou
aqui para jogar pedras na igreja, tampouco para tomar minha experiência como verdade
absoluta, mas a observação empírica revela dados que não podem ser ignorados.
Fiz amigos em espaços religiosos na minha juventude que me seguiram na vida
adulta, ou que eu reencontrei nessas curiosidades do destino e agora se
tornaram parte da minha vida novamente… outros que julgava meus amigos e que se
afastaram irremediavelmente pelo simples fato de eu ser gay. Pessoas que chegaram a frequentar a minha
casa por anos a fio, múltiplas vezes por semana. Não que eu sinta falta
deles, não é o tipo de pessoa que eu quero ao meu lado atualmente. Não é
impossível ser gay e estar inserido em um contexto religioso… tampouco é fácil.
A fantasia
cor-de-rosa de amor e aceitação incondicional só existe nos panfletos.
Note, como
exemplo, o fato discreto de Barth e Tanrak não se sentarem no mesmo banco no
fim do episódio, quando eles vêm à ordenação de Kongdech: adulto, poucas vezes
fui à igreja acompanhado de meu namorado/marido, e ainda que andemos de mãos
dadas em todos os lugares a que vamos e demonstremos carinho publicamente, no
estacionamento da igreja eu instintivamente
solto a mão dele. Não é planejado, mas vem de um sentimento de medo
internalizado que não é racional, e tem a ver com toda a estrutura religiosa
que impõe um sentimento de culpa do qual não é fácil de escapar. Racionalmente,
talvez, mas é aí que está a jogada da instituição religiosa: ela não lida apenas com a sua parte racional…
é muito mais amplo que isso.
“Ticket to Heaven” apenas toca a
superfície do tema, embora algumas pessoas não entendam isso. Eu acho que esse
último episódio deixa pequenas dicas… a própria questão do banco é uma, e a
confissão de Tanrak é outra. Ali, Tanrak fala sobre “ter pecado”, fala sobre
“ter decepcionado as pessoas” e sobre “temer não ir ao céu para reencontrar os pais”.
Essa é a menção que se faz à culpa cristã no episódio final, porque Tanrak
viveu uma vida inteira ao lado de
Barth, e talvez ele nunca tenha conseguido se entregar por completo porque ele carregava em si um sentimento de culpa e se
sentia egoísta por ter escolhido viver também para ele mesmo e não apenas para
Deus, ou melhor: para as regras e
convenções da igreja. Naquele momento, o padre tenta libertá-lo desse
sentimento de culpa.
Voltemos, no
entanto, ao restante do episódio e, como eu disse na minha introdução, eu
gostei demais do que vi até a passagem de tempo. E, novamente, com ressalvas. Eu acho que “Ticket to Heaven” não se sobressai como
a premissa permitiria por não se permitir discussões realmente aprofundadas
sobre os temas propostos. Ela é uma história de amor e funciona bem como tal,
até porque Gemini e Fourth estão excelentes em seus papeis e transmitem muita verdade
e muita química em cada cena que compartilham. Quando digo que a série fica
aquém de seu potencial, o talento dos meninos não é colocado em cheque… o que
se percebe é que, se tirássemos todo o pano de fundo religioso, a série ainda
funcionaria com uma ou outra adaptação, mas nem tantas…
Então, “Ticket to Heaven” é um BL quase comum,
não é transgressor nem nada.
Um BL comum
MUITO BOM, diga-se de passagem. Mas não o impacto que ele poderia ser.
Barth
falara, no episódio anterior, sobre eles “buscarem um lugar que fosse para
eles” se achassem que a escola não era mais, e eles vivem juntos uma viagem que
ajuda a definir os rumos de ambos… além de visitar o túmulo dos pais e de
“apresentar” Barth a eles, Tanrak também reencontra Lek, uma mulher trans que estudara
com o pai e que se vê em Tanrak de alguma maneira, e Barth faz uma visita à mãe
na prisão, também levando o Tanrak para que ela conheça o homem que é tão
importante em sua vida, embora ele o apresenta como um amigo. Há algo de bonita
intimidade nas cenas que eles
compartilham, e fica mais claro a Tanrak, a cada segundo, que ele não pode
viver sem Barth. Que independente do que acontecer, ele não pode abrir mão
desse amor.
Gosto muito
da cena que os dois têm em um hotel barato antes de pegar um ônibus de volta
para casa… gosto de cada olhar e gosto do sentimento geral de experimentação e
descoberta, e a sequência se divide em dois momentos: o primeiro deles em uma
banheira vazia na qual eles provam cigarro e detestam e ouvem música
compartilhando fones de ouvido e revivendo momentos de sua história juntos; o
segundo quando Barth diz que o ama e Tanrak responde que também o ama, e os
dois fazem amor pela primeira vez, entregando-se por completo um ao outro. O
sentimento expresso de ambos, a intensidade cautelosa da novidade, a iluminação
e condução da cena como um todo que de fato me passa uma sensação de algo que
acontece nos anos 1990…
Eu teria
gostado de me despedir dos personagens ali.
Como eu
disse, eu gosto do fato de Barth e Tanrak terem ficado juntos e eu não queria,
de modo algum, que eles não ficassem. Não gosto, no entanto, da propaganda da
última meia hora de episódio que torna tudo fantasioso demais. Questionar o
final de “Ticket to Heaven” ou a
série como um todo não é, de modo algum, desejar o mal de Barth ou Tanrak, um
final trágico ou que eles não ficassem juntos… é apenas desejar que a série
fosse menos gospel e tratasse com
mais realidade toda a temática de ser LGBTQIA+ em um contexto religioso – e se
a ideia não era vilanizar a igreja, ainda era possível tratar o assunto com
mais ênfase e realidade, mas, como eu disse, a série escolheu focar na parte do
romance e apenas pincelar e/ou sugerir problemas reais.
O que Tanrak
viveu e sentiu foi mais do que uma
batalha interna, quer a série diga ou não.
Portanto,
tenho ressalvas… eu esperava mais do tratamento da temática por Aof, e foi uma
escolha deliberada fazer a série como a fez: ele saberia fazer isso de modo
diferente, e Gemini e Fourth estavam preparadíssimos para entregar ainda mais
em outra narrativa. Ainda assim, se eu ignoro minhas expectativas e ressalvas e
foco na entrega da proposta final da série, “Ticket
to Heaven” é competente no que se propõe e de fato entrega uma bonita
história de amor entre jovens que têm suas próprias marcas e impedimentos. É
gostoso ver a descoberta desse sentimento e o florescer dele, e acompanhar
enquanto eles constroem uma história juntos, em um processo que envolve
aceitação de si mesmo, reconhecimento de riscos e tomada consciente de
decisões.
Eu amei
Barth e Tanrak. A história deles me tocou.
Para mais
postagens de “Ticket to Heaven”, clique
aqui.
Visite também nossas páginas: Reviews
de BLs e Produções
LGBTQIA+

Comentários
Postar um comentário