Ticket to Heaven – Ep. 05
“Father,
I’m scared. I’m scared God will reject me”
O episódio
que dividiu opiniões, que causou brigas nas redes sociais, que levantou
discussões pertinentes para as quais nem todos estão preparados… exibido em 27
de junho de 2026, o quinto episódio de “Ticket
to Heaven” desempenha o papel do que chamávamos de “Episódio 11” em uma
época em que os BLs tendiam a um padrão de 12 episódios, e é um momento de
decisões: a série vai entrar de cabeça em
todo o peso de uma narrativa que envolve homossexualidade, culpa católica e a
maneira como pessoas LGBTQIA+ sempre foram tratadas pela igreja, especialmente
na década de 1990, ou vai se afastar disso? Minha impressão e minha
resposta a isso é: a série escolhe deixar isso como pano de fundo para uma
história de descoberta e aceitação.
É um
problema? Intrinsecamente, não. Não deixa, no entanto, de ser um potencial
desperdiçado – especialmente se comparamos a série que recebemos com o Piloto
de quando ela foi anunciada. Eu amo “Ticket
to Heaven”, sou fã do trabalho do Aof há anos e o defendo com unhas e
dentes, mas percebo que a série, que nos toca e que tem uma qualidade técnica e
de atuações inegável, conteve-se de sua ideia original, por um motivo ou outro.
Ainda que a temática esteja ali, ela não se torna o centro narrativo de fato, e
embora haja um quê notável de melancolia
que acompanha as dúvidas de Tanrak e que Fourth entrega com uma perfeição
absurda em cada cena sua, eu penso em obras como “Seu Nome Gravado em Mim” e como aquela me deixou destruído e sem
ar.
Ainda me sinto assim ao pensar nela.
“Ticket to Heaven” e “Seu Nome Gravado em Mim” não
compartilham nenhuma equivalência óbvia, a não ser, talvez, a inserção de parte
da vivência do diretor na obra de ficção, mas o filme me veio à mente enquanto
assistia ao episódio, e agora acredito que ele me ajuda a dizer o que quero
dizer: com que sentimento eu me lembrarei de cada obra dentro de alguns anos?
Acredito que enquanto “Seu Nome Gravado
em Mim” tem um gosto agridoce e duradouro, “Ticket to Heaven” pincela assuntos mais profundos, mas viverá em
minha mente mais como uma história de amor entre esses dois garotos do que
qualquer outra coisa… e eles calham de estar em um colégio religioso. Como eu
disse inicialmente: é uma escolha da obra e não é intrinsecamente um problema.
Outras
escolhas talvez a tornassem uma daquelas obras “essenciais”.
Não nego que
eu adoro acompanhar Barth e Tanrak, e acho que o que se faz, se faz com muita
qualidade – e responsabilidade com a escolha narrativa da série, seja ela qual
for. Nesse quinto episódio, vemos o romance desses dois garotos tornar-se
essencial para ambos, e eu gosto de poder suspirar por eles… eu gosto de ver
como eles trocam bilhetes não tão discretamente, como marcam encontros na sala
de música e como ousam compartilhar um cobertor durante uma noite de filmes no
colégio. Predomina, aqui, aquele espírito altivo da descoberta do amor, e Barth
e Tanrak expressam isso com maestria nos olhares apaixonados, às vezes
furtivos, nos sorrisos, na respiração. Assim como em outros BLs, eles fazem com
que a audiência sinta o que eles
estão sentindo.
As coisas
mudam de figura no momento em que eles
quase são descobertos. Compartilhar um cobertor durante uma noite de filmes
deixa de ser o suficiente em algum
momento, e então eles “escapam” durante a segunda parte de um filme para algum
lugar onde eles não serão encontrados… há alguma urgência e bastante desejo na
maneira como eles respiram o mesmo ar, como Barth parece ofegante, como Tanrak
se entrega aos poucos, e como ele se desespera quando escuta passos e teme que
eles serão descobertos. A partir dali, a cabeça de Tanrak está a mil, girando
com todos os momentos bons que ele e Barth compartilharam desde que a sua
história começou e o sermão do padre que perguntava se “todo tipo de amor nos
aproxima de Deus”.
Tanrak é conduzido a acreditar que talvez não…
ele foi criado em uma sociedade na qual a religião ajuda a sustentar uma
homofobia opressiva que faz com que ele sinta medo e culpa. E é por isso que ele se afasta. Tanrak foge do olhar, do
toque e de qualquer contato com Barth durante os dias seguintes, consumido
sozinho pela própria culpa de não conseguir deixar de sentir por ele o que
sente, sem que ninguém que possa lhe dizer que não há problema nenhum em ele amar Barth. O medo de ser descoberto,
no entanto, faz com que ele escape durante a noite para resgatar um caderno de
atividades que tem registros de seu romance, e então ele queima (quase posso
ouvir Philippa Soo cantando “Burn” na
trilha sonora) tudo o que se refere a eles…
É uma cena
dolorosa, e eu adoro a edição. O contraste entre as lembranças felizes que cada
um dos detalhes queimados evoca com a escuridão que toma conta de Tanrak,
iluminada apenas pelas chamas que transformam em cinzas as memórias concretas
do que ele viveu… mas deixa intacto tudo
o que ele sente dentro dele. Essa cena também
divide opiniões. O ato de queimar tudo o que remete ao romance dele com Barth
não é o ápice do sentimento de “culpa cristã” de Tanrak, no fim das contas: é
um ato de desespero porque ele não quer
ser descoberto… ele não quer ter que enfrentar as pessoas se eles souberem.
A culpa cristã é, sim, parte desse momento, mas não é o centro de tudo, porque
a cena caberia em qualquer outra história de um homem descobrindo sua
homossexualidade e temendo reações alheias.
Gosto do
simbolismo da mão de Tanrak suja após ele queimar as coisas, ou da marca que
viverá para sempre na piscina abandonada da escola, e Tanrak descobre no dia
seguinte que a sua história já não é
realmente um segredo… Kongdech tem uma cena com ele na qual ele pergunta se
“Tanrak conseguiu queimar a tempo as provas de seu envolvimento com Barth”, e
ele acentua a culpa de Tanrak: ele diz que ele o traiu ao não contar nada para
ele, assim como em provavelmente não ir para o seminário com ele como
combinaram, mas a pior coisa que ele faz é perguntar se “Tanrak não quer mais
se reunir com os pais no céu”, como se o fato de amar Barth automaticamente o
impedisse disso. É angustiante e triste, mas é uma apenas uma pincelada da
homofobia que Tanrak sofreria naquela realidade.
Infelizmente.
Barth
eventualmente confronta Tanrak… ele quer saber o que está acontecendo e se ele
faz alguma coisa de errado para que ele o evite por uma semana inteira, e
Tanrak não quer falar com ele. Ele está com o seu rosário na mão, pronto para
horas de reza incessante, enquanto Barth pergunta “o que Deus fez por ele”.
Dali, partimos a uma cena importante na qual Tanrak se confessa e, novamente, Fourth entrega uma atuação pungente. Ele
fala sobre estar apaixonado, ele fala sobre se odiar por não conseguir deixar
de sentir o que sente, e ele fala sobre o medo de ser rejeitado por Deus por
amar outro homem… ainda que o padre fale que Deus o ama e nunca o rejeitará,
ele ainda fala sobre “pecado” e “arrependimento”, conceitos da Igreja para a
manipulação das pessoas.
Tanrak não
chega a sair mais leve da confissão… mas ele encontra um Barth que ainda está
ali, esperando por ele, e que não pensa em desistir. Tanrak é mais sincero
aqui, ele fala sobre como “Barth sabe que eles não podem ficar juntos”, e fala
sobre eles estarem ali, bolsistas em uma escola católica, mas Barth ainda quer
um futuro com ele e o ama… e quando Tanrak não consegue negar que também o ama, Barth escutou tudo o que
ele precisava escutar, nada mais importa. Então, ele o abraça, e eu acho bonito
quando ele diz que se aquele lugar não é
para eles, eles podem fugir juntos e encontrar um que seja. Então, “Ticket to Heaven” ameaça tocar na
ferida e antes que se chegue ao fundo do poço, ela recua… é uma mescla entre o
tema proposto e a fantasia BL do gênero.
O problema é
se pender mais para um lado que o outro…
Vamos ver
como eles encerram essa história!
“If this
place isn’t for us, let’s run away together”
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