O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada, 2006)
“You sold
your soul to the devil when you put on your first pair of Jimmy Choos, I saw
it”
UM CLÁSSICO
É UM CLÁSSICO! Com roteiro de Aline Brosh McKenna, baseado no livro homônimo de
2003 de Lauren Weisberger, e direção de David Frankel, “O Diabo Veste Prada” é um daqueles filmes que se tornaram parte do
imaginário popular. A história da mulher que sonha em ser jornalista e consegue
um emprego como segunda assistente de uma figurona da indústria em uma grande
revista de moda e que se transforma conforme se torna exatamente o que se espera que ela seja – mas não necessariamente quem ela é de verdade e quem ela quer ser para o resto da vida.
Lançado em 2006, o filme protagonizado por Meryl Streep e Anne Hathaway é um
sucesso de público e crítica, que ganhará uma sequência vinte anos mais tarde,
agora em 2026.
Anne
Hathaway dá vida a Andrea Sachs, a candidata inesperada a segunda assistente da grande Miranda Priestly,
interpretada por Meryl Streep. De um lado, uma jovem sonhadora e determinada,
capaz de surpreender justamente por não
ser o que se espera de alguém que aspira aquele cargo; de outro, uma mulher
dura com pouco respeito pelas pessoas que trabalham para ela, mas inegavelmente
excelente no que faz. Muito se fala sobre como milhares de garotas morreriam para conseguir aquele emprego, mas
Andy inicialmente o vê apenas como o emprego que esperançadamente vai abrir
portas para o que ela realmente quer fazer… ela nunca ouviu falar de Miranda
Priestly antes, tampouco lê a Runway
ou se veste como as demais candidatas…
Mas esse é um diferencial bem-vindo.
“O Diabo Veste Prada” é a jornada de
amadurecimento e descaracterização de Andy Sachs, em uma trama gostosa e
aconchegante de se assistir, mas que suscita questões interessantes não apenas
sobre a indústria da moda em si, mas sobre o mercado que rege a sociedade na
qual vivemos. O tratamento de Miranda é abusivo, Andy trabalha por muitas mais
horas do que deveria trabalhar, deixa de lado sua família, seu namorado, seus
amigos e, aparentemente, seus sonhos, e se torna uma versão de si mesma que é
quase irreconhecível ao fim da jornada… até que ela tome a sua decisão acertada
de deixar para trás o que ela não quer pegar para si. É um filme sobre
empoderamento, sobre identidade, sobre sonhos e sobre limites, muito mais
complexo do que parece a uma primeira vista.
Curiosamente,
é bom de se acompanhar o crescimento
de Andy Sachs, até porque inicialmente estamos alheios aos principais
problemas. É recompensador ver a maneira como ela evolui e demonstra que ela
pode ser excelente no trabalho que muita gente duvidou que ela conseguiria
fazer… quiçá até a própria Miranda Priestly, embora para que alguém como ela
tenha sequer dado uma chance a Andy,
é porque ela viu algo nela. Gosto da
transição de estilo de Andy que vai além da batida trupe de “garota feia que
fica bonita”, como em “O Diário da
Princesa” e tantas outras histórias, porque Andy sempre foi uma mulher
bonita – mas que talvez não entendesse tanto de moda ou não se importasse com
isso. E ela precisa pensar nisso para ser vista e respeitada naquele meio.
Há um quê de
catarse quando Miranda a chama de “Andrea” e não de “Emily” pela primeira vez…
e Andy aprende o básico da função de assistente, que é o mínimo que se espera
dela, e constantemente se supera, conseguindo fazer coisas aparentemente impossíveis que chamam a atenção de
Miranda, embora Miranda seja daquele tipo duro que raramente demonstra emoção
e, portanto, não reconheça isso em voz alta. Quando Miranda pede que ela
consiga o manuscrito do último livro de “Harry
Potter” para que as suas filhas gêmeas possam ler, ela a está testando
porque acha que ela jamais conseguiria isso… a própria Andy acha que não
conseguiria, até que ela consegue. E, aos poucos, ela vai ganhando o respeito
que julgava impossível.
O
crescimento profissional de Andy Sachs é inegável. Ela se sobressai e é
impossível não ficar contente por ela,
e esse é um dos motivos pelos quais eu gosto tanto do filme: eu gosto do aparente paradoxo. Ficamos
felizes por Andy e seu sucesso na Runway
ao mesmo tempo em que ficamos tristes por e com ela na maneira como todo o
resto parece estar sendo deixado de lado… ela vai se tornando a pessoa que
tanto criticava no início do filme, começa a se afastar dos amigos e coloca em
cheque o seu relacionamento de tanto tempo com Nate, penando entre erros,
acertos e tentativas de validação da chefe abusiva. Quando ela parte a Paris em
um evento importante, substituindo Emily, a primeira assistente de Miranda que
sonhava com esse momento, Andy é convidada a pensar…
Quem ela quer ser, afinal?
Todo o tempo
de Andy na Runway é inegavelmente
importante, e eu acho que será essencial para o seu sucesso futuro em um
emprego que seja realmente o que ela
sempre quis fazer, mas é uma experiência estranhamente positiva dentro de um
tempo limitado. Quando ela presencia Miranda Priestly dando à sua arqui-inimiga
Jacqueline Follet um emprego fantástico com o qual Nigel Kipling, seu
companheiro de trabalho e amigo há tanto tempo, estava sonhando, Andy percebe
que ela não seria capaz de algo assim – ou não quer ser, embora talvez tenha
feito algo similar com Emily. Andy e Miranda compartilham um diálogo emblemático dentro do carro quando
Miranda fala sobre o quanto elas são parecidas, e é naquele momento que a ficha
de Andy cai.
E ganhamos a
cena ICÔNICA de Andy jogando o celular nas Fontaines de la Concorde.
Miranda
Priestly também é uma personagem complexa e não é à toa que ela tenha se
tornado uma figura tão memorável. Além da interpretação pungente de Meryl
Streep, Miranda é uma personagem de camadas escondidas, mas presentes. Ela
aceitou o fardo de sua posição e se tornou a pessoa que se espera que ela seja
no cargo que ocupa, ainda que seja ocasionalmente criticada por isso, de uma
maneira que um homem jamais seria. Duas cenas são essenciais para apresentar a
profundidade da personagem e sua faceta humana: uma delas pouco após o seu novo
divórcio, quando ela deixa transparecer parte do que sente; e outra ao fim do
filme, quando Andy acena para ela do outro lado da rua e ela não responde, mas
sorri secretamente para si mesma dentro do carro.
Eu gosto
dessa jogada para além do que ela deixa transparecer o tempo todo.
Gosto de
sentir ORGULHO de Andy e de ficar FELIZ por ela. Ficamos felizes com cada
conquista dela ao longo do filme, e admiramos a sua coragem por fazer o que talvez a maioria das “garotas que morreriam
para ter aquele emprego” jamais faria – e é a combinação de sua dedicação, seu
inegável profissionalismo e sua autenticidade que lhe abre portas para um
futuro de sucesso fazendo aquilo que ela queria fazer… com direito até a uma
“recomendação” de Miranda Priestly, ainda que seja à sua maneira. “O Diabo Veste
Prada” é e sempre vai ser um sucesso porque, além de extremamente
competente, ele tem um coração imenso e conversa com a sua audiência. Ele
diverte, emociona e aquele o coração, sendo um daqueles filmes que nos marcam
deliciosamente.
Não é à toa
que é um clássico moderno!
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