O Fim da Rua (The End of Oak Street, 2026)

“I think that our neighborhood, our whole street... has moved. I think... our house is somewhere else now”

Escrito e dirigido por David Robert Mitchell e protagonizado por Anne Hathaway e Ewan McGregor, “O Fim da Rua” é um filme de aventura com pitadas de ficção científica sobre uma família cujo bairro é misteriosamente transportado de 1982 para milhões de anos no passado, para a época dos dinossauros – com um quê de “Jurassic Park” no conceito de “humanos interagindo com dinossauros”, algo que me fez pensar em “O Som do Trovão” e acenos a “De Volta Para o Futuro” em sua conclusão, o filme se sai bem como essa história inusitada que também é inesperadamente sensível e conversa com um quê de drama e de emoção além da comédia e aventura.

Denise e Greg estão enfrentando problemas no seu casamento, mas não falam sobre isso… Greg deliberadamente escolhe não falar. Faz algumas semanas que ele foi demitido de seu antigo emprego e está trabalhando entregando pizza e fazendo outros bicos desde então, e Denise secretamente deseja ir embora, mas não tem coragem ao olhar para os filhos, ainda que as suas malas estejam prontas, a julgar por um livro que ela está secretamente escrevendo e que é tão pungente por ser real em relação aos seus sentimentos. A falta de comunicação faz com que os problemas sejam apenas empurrados à frente, para que se lide com eles em algum momento do futuro.

Ou não.

A experiência de envio ao passado muda tudo… altera prioridades e acentua sentimentos. Gosto da sequência em que a transição acontece, aparentemente através de um buraco de minhoca que está trocando pedaços de terra entre o presente e o passado. É um clarão que acontece durante uma tempestade e que muda a vida daquele bairro para sempre: no novo lugar, sem a chuva, eles descobrem estar também sem energia elétrica, sem linhas telefônicas e sem água. Eles precisarão encontrar como sobreviver em uma casa ou em um bairro, em situações absurdas, tal qual aconteceu em “A Última Casa”, onde um lugar aconchegante se torna inóspito.

Durante um período curto, o filme trabalha com um suspense a la “Tubarão” que não mostra as criaturas que precisarão ser enfrentadas, ainda que a sinopse, pôster ou trailer não nos deixe dúvidas de que se tratam de dinossauros – eu gosto de como o não visto funciona no cinema, mas é apenas um mecanismo anterior à apresentação aqui, e não explorado de maneira consistente. Eventualmente, os dinossauros fazem a sua estreia, e começamos a ver dinossauros como pterodáctilos, espinossauros, alossauros, celófises e até uma titanoboa em algum momento. Dinossauros que têm pelos, que têm penas, que representam descobertas e estudos recentes.

Não tem a magia de um “Jurassic Park” original e todos os efeitos práticos escolhidos por Steven Spielberg, mas tampouco é a proposta… os dinossauros despertam sentimentos de medo nos personagens, mais do que o fascínio esperado da franquia “Jurassic Park”. E eles funcionam na agilidade da trama e entrega de sequências de ação enquanto os personagens estão lidando com o que precisa ser lidado… Brian e Audrey, os filhos de Denise e Greg, desempenham um bom papel na trama, com destaque para a maneira como Brian se preocupa com Starbuck, o cachorro da família, e como Audrey fica amiga de Jeannette, a garota que perdeu os pais.

Já Denise e Greg falam sobre o que estava entalado nas horas mais “inoportunas”, mas que são justamente quando filtros desaparecem graças à urgência. É bom ver como algumas coisas são expostas antes de serem superadas, ao invés de serem apenas engolidas de maneira não-saudável. Elas são reconhecidas, validadas e deixadas para trás quando se entende o que é mais forte. Denise tem muitos motivos para estar infeliz, mas são superáveis frente ao amor que ela e Greg ainda sentem um pelo outro, e aquela cena na qual ela pede para tirar uma foto dele em frente aos dinossauros que estão transando é excelente… e eu não esperava que a história tomaria o rumo que tomou.

No clímax do filme, tudo fica desesperador. Greg é brutalmente devorado por um dinossauro, o que confere alguma realidade para o tema, já que eles estavam até então se saindo muito bem em confrontos com criaturas mortíferas, e a família é atacada por uma serpente gigante antes de encontrar o que pode ser um caminho de volta para casa – um portal aberto em intervalos de aproximadamente 8 segundos, mas irregular o suficiente para permitir a passagem de Jeannette mas se fechar dentro da janela de tempo quando Brian tenta saltar. E, quando não parece haver outra opção a não ser um salto de fé, Brian, Denise e Audrey pulam juntos.

O portal os leva de volta a 1982, aproximadamente 20 minutos antes do clarão que levou o bairro inteiro para o passado – e, então, algumas vidas ainda podem ser salvas, tal qual Marty McFly espera usar os minutos extras para salvar a vida de Doc Brown do ataque de líbios. A morte de Greg é “revertida” com uma ligação de Denise, o que pode gerar um paradoxo que não é tratado pelo roteiro, e tampouco eu acho que seja um problema… mexer com viagem no tempo é sempre ardiloso, e foi uma escolha do roteiro. Concedo o benefício da “licença poética” para um final bonito no qual Greg é salvo com a Denise ligando e encomendando uma pizza a ser entregue fora do bairro…

Gostei bastante do filme!

 

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